Trazemos estereótipos agarrados por todos os lados, colados aos poros, entranhados desde a nossa própria infância. Nos meus ouvidos entoavam aquelas frases é mesmo uma menina adora o aspirador e quer sempre agarrar a esfregona e gosta dos bonecos. No dia anterior o meu boy mais pequeno tinha passado o dia comigo a arrastar o aspirador, de volta da vassoura, a embrulhar o boneco numa manta. Tem quase 16 meses e os neurónios livres como um pássaro. Não há ainda forma de lhe tolherem os pensamentos e não está ainda exposto a frases feitas. Se houver mais um boy crescerá neste ninho não castrador. trazem naturalmente na sua natureza características gerais que os fazem ser mais físicos, racionais e todos esses lugares comuns que depois se embrulham com mil outras vivências e especificidades.
foram dias cheios, a casa a rebentar por todas as costuras, de sons, de afectos, de gente, de passeios, de louça acumulada, de objectos espalhados, de sorrisos ruidosos. voltamos às rotinas calmas a pensar em férias.
há cidades invisíveis. há cidades das memórias. há cidades vividas a fundo e cidades de passagem. não há cidades boas e cidades más. não há cidades feias. há cidades mais mágicas que outras. há as sublimes. as fotogénicas. há cidades cabeludas. há cidades com lindas linhas de horizonte. há cidades que se nos colam ao corpo e cidades que ganham corpo nas nossas memórias. há cidades muralhadas de montanhas. há cidades viradas para a água. cidades de madeira. cidades de tijolo. há cidades barulhentas e outras silenciosas. e todas são cidades.ter quatro cidades com ruas percorridas para cima de mil vezes faz delas um bocadinho nossa propriedade, propriedade das nossas histórias.
barcos pirata, construções mais ou menos elaboradas, torres quase a bater no tecto, espadas com muita fita cola, casas. continuamos rendidos a brinquedos que não os condicionem. que os deixem com a porta da imaginação escancarada e não só entreaberta. que os façam pensar, construir, improvisar, adaptar, tocar, descobrir. brinquedos para o menino e para a menina, que nunca encerram utilizações.
não sei que memórias guardarão. serão muito distantes das nossas porque nem a vida se repete nem a infância se mimetiza. deixamos muitas portas entreabertas, espreitamos janelas entre dois países e se a memória não vos falhar lança-mo-vos ao mundo. há mais uma caixa de pequenos legos que trazem novas figuras mas é esta riqueza não palpável, este vazio de objectos, aqueles dias conjugados a quatro no verbo explorar que queremos que fiquem. vão e voltem.
a minha professora de antropologia queria muito que os seus alunos associassem o início do curso de arquitectura com uma infância no meio de construções com legos. eu, que apesar de gostar da senhora, achava a associação bacoca, quase "assumi" que devia introduzir outras ferramentas de brincadeira com receio de encerrar o espectro de descoberta de áreas de interesse aos meus filhos. queria muito abrir-lhes a amplitude e cheguei à conclusão que construções podem até treinar um cirurgião, um mecânico ou, melhor ainda, nada destas catalogações profissionais do século xx. estamos só no início do século xxi. eu cada vez mais gosto dos brinquedos sem século, com formas puras e multi funcionais. temos a casa sempre aberta a novas peças de lego e encontramos sempre uma maior amplitude de utilizações.
não há por aqui grandes resoluções ou objectivos só porque o ano se renova. janeiro pede-nos listas de novos propósitos. só temos velhos. pouco ambiciosos e realizáveis propósitos. nada pomposo. tudo pequeno. em janeiro como em outros meses vão cabendo sonhos pequeninos. olhar para ele, para janeiro, sem conseguir ver essa grotesca renovação que ele parece querer exigir, sem saber se será mesmo suposto recomeçar com datas solenes o que quer que seja. é janeiro e aqui nada começou. tudo continua.
começou o inverno. é quase natal. perceber de onde se misturaram tradições, se cruzaram e se miscigenizaram rituais, se sobreposeram datas e se aglutinaram festejos. os equinócios colam-se sempre a celebrações atuais. bom equinócio!