14 de julho de 2017

cartas de dentro II

























saltas os projectos do começar direto para o acabar porque os teus objectivos estão concentrados no verbo fazer e no verbo terminar. tens uma sinceridade por vexes dilacerante mas na mesma medida um contorcionismo matreiro. largas-te como uma fera indomável na brincadeira provocatória porque queres sempre parceiro para ela. interessam-te os maus do mundo animado. os animais para ti têm mais interesse quando são inanimados. apagaste o inglês à mesma velocidade com que entraste nele. achas sempre que os desenhos do teu irmão são perfeitos e que não és capaz de desenhar nada mesmo o que desejas com toda a tua vontade eu uso esta referência pela segunda vez mas sei que no fundo a existência de uma referência direta acrescenta uma gestão mental ainda mais desafiante às frustrações normais entre o desejo e a capacidade de traduzir o que vos vai em pensamento. achas sempre que tens poucos sapatos e esse facto deve explicar as persistências que alimentavas aos 18 meses de querer usar sapatos desadequados da estação em que nos encontrávamos mesmo que nos encontrássemos na suíça em pleno inverno e nevasse ou na persistência que sempre alimentaste em não usar os que não te agradavam num conceito estético tão teu. queres sempre os pés quentes e umas meias a fazer garrote para as calças de pijama não saírem do sítio faça frio ou faça mesmo muito calor. emanas luz e um sorriso sempre rasgado e gingas o corpo solto de todas as tensões que te imputem. dás-te. abraças. beliscas. sorris e deitas tudo o que não te interessa fora. sempre. estás sempre a deitar fora o que não interessa por isso no teu nariz há sempre esse ranho que não interessa guardar. serpenteias a dizer que estás presente e que de nós esperas reações. és distraído, desfocado, desgovernado, expressivo. tens uma omnipresente referencia no teu irmão maior e uma paixão desejada no teu irmão menos. tens sempre em ti um moinho que mói noite e dia e muitas vezes dedicas-te a moer em meu redor as tuas moagens. móis os teus quereres para que a água não deixe de passar, vais moendo mesmo que o vento não vá de feição. um dia mostro te o cartaz que há dentro de ti e já esteve do lado de fora da tua própria história: não interessa quem faz o que interessa é que se faça. és o nosso huckleberry finn.

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eu vista por mim

eu vista por mim
novembro1982