20 de março de 2015

do que nos interessa a nós






























és o meu tubo de ensaio. contigo nasci cientista. investigo ingredientes e novas combinações por e para ti a cada dia que passa. a cada novo desafio que nos aparece pela frente. avanço e recuo. avançamos e recuamos. experimentamos novas combinações e quando atinges um pequeno novo equilíbrio por mais pequeno que seja, sinto-me bem sucedida, acalmo, relaxo, sento-me no confortável cadeirão da maternidade e contemplo. mas a tua vida avança e abre todos os dias novas janelas. rasgas novidades que nos fazem voltar ao laboratório a cada variável que surge. fazemos novas misturas. acrescentamos novas substâncias e, temos resultados umas vezes mais bem sucedidos que outros. fazes-me imergir em reflexões. já me fizeste ler relatórios sobre métodos de aprendizagem. já confiei que avançavas dando tempo ao tempo. e o tempo provou que sim. devemos confiar-lhe muita coisa, muitas mais coisas.devemos sossegar mais vezes, muitas mais vezes. devíamos ter muitos filhos e desconcentrarmo-nos de cada um. já voltamos um passo atrás e pareceu que avançamos dois. mas sem o avanço e o recuo não teríamos avançado duas casas. às vezes as contas +1-1 podem dar +2 basta introduzir a variável novas experiências nessas somas e a matemática pode baralhar-se e a equação deixar de pertencer unicamente a esse domínio.  não guardei no álbum de bebé nenhum pedaço do teu cabelo. mas cortei-te a farta cabeleira desde que nasceste. muitas vezes no primeiro ano. registei algumas, desacertei outras e repeti estratégias para não teres simulacros de tigelas na cabeça. nunca passeei no pescoço nenhum  fio de ouro com o teu primeiro dente ao dependuro.  casei o ordinal e o cardinal correspondente na cabeça, sete dentes até ao dia do sétimo aniversário, e mesmo assim receio que a memória me traia. voltam sempre a repetir zumbindo-me aos ouvidos a tua minúcia nas actividades que executas, nos exercícios manuscritos, nas manualidades e na ponderação que imprimes. mas estes últimos meses rodopias com as ultrapassagens que fazes à lentidão e à frustração inicial pelos trabalhos que deixavas por terminar.  a ginástica penetrou-te cérebro adentro e flexibilizou o raciocínio e a capacidade de trabalho. és desajustado nas primeiras abordagens e nas primeiras aproximações e integrações mas rápido a entrar na engrenagem e a mimetizar o que te rodeia. tens os ingredientes envolvidos com a batedeira na velocidade máxima vindos do pai e da mãe. os físicos e os psicológicos e, à medida que cresces vamos descodificando a origem de cada sabor, mesmos os aromas adicionados só para apurar. rebobino a minha infância e encontro a agilidade, a destreza física, a flexibilidade e a relação com o corpo que fui perdendo em mim e quase fico a ver-te ser capaz de trepar o muro de 6 metros que me fazia libertar da preparatória mesmo

quando tinha um pulso com pontos. treinei o pino incluindo abertura de 180º medidos a transferidor até ficar perfeito e quase cheguei ao flik flak por minha conta ainda o pinheiro da tua escola era pequeno. revejo-te nos mortais que arriscas sem pensar nos riscos e invejo-te os colchões e o treino que te amortecem as tentativas. todos os dias encontro genes do papá quando acertas os punhos das camisolas e as alinhas em paralelas certinhas. és tão nosso, tão misturado, que chego a cegar-me de deslumbramento por milésimos de segundos. outro dia num almoço de muitas mães fiquei uma hora a ouvir uma deslumbrada a falar do seu deslumbramento. quase desmaiei com o soporífero. é tenebroso ouvir mães deslumbradas, cegas de amor, maçadoras descrições de cada palavra mal pronunciada. tenho a certeza que camuflei uma expressão de tédio para não ser desagradável e que me inibi de pronunciar e partilhar todas as equações das habilidades que os meus filhos sabem fazer. são tão normais que nunca as debito. são tão entediantes, tão sem graça. dizem palavras tão normais, cheias de cócó e disparates à mistura que temo maçar o mais entusiasmante e paciente ouvinte. deixo-as falar, às mães e, sinto-as felizes numa felicidade alucinada por uma outra mãe não replicar com novos episódios num jogo de pingue-pongue salteado em que cada uma se ouve a si própria. chego a subvalorizar-vos as aquisições e a induzir em erro características e depois tenho de me corrigir e ver que afinal em vocês, em nós também há magia. até agora os vossos álbuns de fotografias são os mais bonitos que vi até hoje. só para que vos conste!


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eu vista por mim

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novembro1982